#1. Introdução: Caçadores de ideias

Publicado em 18/04/2023
10:09 | 30 visualizações

BEM-VINDOS E BEM-VINDAS!

Este vídeo faz parte de uma série de outros vídeos que vão acompanhar-te nesta experiência de ser escritor, neste que é um ateliê de criação literária, integrado na Academia das Artes para a Construção de Asas e de que agora também fazes parte.

Esta Academia foi criada para ajudar a construir asas em todos os meninos e meninas que possam estar a precisar delas. Onde fica?, poderás perguntar. Bom, as fábricas da Academia das Artes para a Construção de Asas ficam dentro de ti, de modo que poderás levá-las para todo o lado. Além disso, o construtor és tu. Mas, como as crianças são pequenas e não chegam a todas as ferramentas de trabalho, existem ajudantes de construtores, ou treinadores de ideias-passarinho, como eu própria. Eu vou, pois, ajudar-te a construir asas em cima das palavras e das ideias delas. 

As asas podem, claro, ser de várias categorias, como literatura, artes plásticas, teatro, dança, música ou fotografia. Na verdade, as asas tendem a misturar-se, assim como os pássaros se fazem de penas, ossos, músculos, de maneira a conseguirem voar. Por isso, não há verdadeiras fronteiras entre as fábricas de fazer asas (mas as fronteiras sempre fizeram pouco sentido, seja em matéria de asas ou de outras coisas). 

Vou, então, ajudar-te a construir asas feitas de ideias-passarinho, que terás de apanhar. Vê se tens todo o material: 

  • Uma folha do teu dossier, ou um guardanapo de papel, ou as entrelinhas de um livro (que deverá ser teu, claro, e não da Biblioteca ou do teu amigo),
  • Um lápis ou uma caneta,
  • A tua cabeça.

Se trouxeste a tua cabeça, podemos avançar.

Ah, uma coisa mais: é muito importante que deixes a tua cabeça voar! Não a prendas por nenhum fio. Deixa-a ir por cima das árvores, por cima dos telhados e das casas, acima das estrelas! Mas também para que possa ir até em baixo da relva e da terra molhada, ao centro de uma flor no jardim, ao fundo do nó do tronco de uma árvore, à gota no curso de um fio de água onde siga uma formiga.

Disse-te antes que sou escritora. O que te parece que faz um escritor? E se eu te disser que, antes de mais, um escritor repara. Repara no que acontece no mundo à sua volta, no que acontece dentro de si mesmo, no que acontece nos outros. Agora, experimenta tu, repara! Observa o mundo à tua volta: o mundo que há no parque, na praia, na cozinha da tua casa, no teto do teu quarto, na sala de aula, nos riscos da tua carteira. José Saramago, um escritor português, que foi Nobel da Literatura, escreveu no seu livro Ensaio sobre a Cegueira “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Um escritor tem, assim, a profissão de reparar nas coisas. Por isso, vê! Vê em volta. Vê dentro. Vê o outro. 

Além disso, um escritor experimenta, tenta-se, nada está errado. Por isso, só tenta! Tenta a ideia. Tenta a palavra. Tenta o texto.

Se não souberes como se escreve a palavra de que precisas para apanhar a ideia que te aconteceu, não faz mal. Escreve como te parece que se escreve, será suficiente o som da palavra necessária (ou inventa a palavra de que possas estar a precisar). Confirmarás depois, facilmente, a sua forma correta. Quando estás na importante atividade de reparar e de tentar, não deixes que nada te distraia – nem mesmo a possibilidade do erro.

Outra coisa: não te preocupes com a forma das tuas ideias-passarinho. Deixa-as ser o que quiserem ser. São texto. O Gonçalo M. Tavares, um escritor português diz que um escritor usa simplesmente o alfabeto!, e que os livros são como bichos, como animais, isto é, com forças e formas diferentes de ser. Eles lá sabem aquilo em que se vêm a tornar. Bom, na verdade, como as pessoas. E não desprezes um texto curto. É uma formiga menos importante do que um elefante?

Agora, presta atenção. As ideias são como os passarinhos: espantam-se, fogem muito depressa das cabeças: como os passarinhos! São ideias-passarinho, pois. E, se elas fogem facilmente, vamos precisar de as segurar rapidamente, através do nosso lápis ou caneta, que são o nosso instrumento de caça, e depois vamos precisar de as guardar numa gaiola especial para este tipo de passarinhos, naturalmente, que é o papel. Por isso, é importante que as guardes numa gaiola. Um caderno-gaiola, claro! Onde mais deveríamos guardar ideias-passarinho? 

As ideias podem ser apanhadas a qualquer hora e em qualquer lugar: na rua, em casa, de olhos fechados, de olhos abertos, em movimento ou parados, a dormir ou acordados. Por isso, é necessário que fiques atento a alguma ideia que passe por perto. Apanha-a logo na tua folha-gaiola. Se não souberes como se escreve a tua ideia, pede a um colega que te empreste as mãos!

Podes pintar as ideias-passarinho que guardares na tua folha-gaiola. Se preferires, pelo contrário, deixá-las como vieram ao mundo, isto é, como vieram à tua cabeça, isso também estará bem.

Um assunto muito importante em matéria de ideias: tens direito ao pensamento livre, a ter todas as ideias-passarinho que quiseres na tua cabeça! Existe, somente, uma regra fundamental: respeitar o outro, a sua humanidade e as ideias que esse outro escolha guardar na sua cabeça e no seu caderno. Posto isto, estás preparado e és oficialmente um caçador de ideias-passarinho!